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Mais um ano na faculdade

Posted on Abril 3, 2026Abril 3, 2026 By diogo
Tempo de leitura: 5 minutos

E agora?

Mais um ano na faculdade pode significar um ano de novas oportunidades que não tinhas expectado. Dependendo das cadeiras que tens por fazer e do tempo disponível, podes fazer algo que tenhas deixado de lado por fazer. Por exemplo, começar a fazer dinheiro. Para muitos, projetos como recuperar artigos antigos, do lixo, do OLX ou do Marketplace do Facebook é algo divertido e sustentável financeiramente. Dar explicações, tratar ou passear animais, na Zoowish, por exemplo, pode ser outra opção. Ou simplesmente, procurar algo mais formal, num café, restaurante, ou negócio local. Posso dizer que fiz todos e que, a curto prazo, é fantástica a liberdade de ter diversidade de fontes de rendimento, ainda que em pequenas porções.

Estagiar é uma outra opção. Seja um estágio profissional ou académico, na tua área ou numa adjacente, é importante continuares a persistir nos teus objetivos. Procurei diferentes laboratórios, mandei mails e mensagens no Linkdin, tive algumas videochamadas com PIs de instituições que daria um mindinho para fazer parte, mas que não estavam a aceitar ninguém ou que não me quiseram aceitar, até encontrar uma que quis. Teve os seus lados bons e maus, mas fiz o que queria fazer e estou contente por poder contar esta história.

Há ainda a possibilidade afortunada de investires o teu tempo em hobbies ou outra especialização. Ter de repetir um ano e chumbar a cadeiras pode ser indicativo de que o percurso que estamos a tomar pode não ser o mais apropriado (fitted) para nós. Há imensas atividades que abdicamos de passar o nosso tempo a praticar para estudar disciplinas desinteressantes e que mesmo assim escolhemos estudar. Música, ouvir mais António Variações, explorar o mundo na primeira pessoa, contruir relações com diferentes graus de complexidade, sentir e emocionar-se pelas coisas e não-coisas da vida. Temos tempo para isso.

Dar o direito a toda a voz
Esse Respeito que queremos para nós
Dar atenção ao nosso chamar
Compensação de quem sabe escutar

António Variações, em Dar e Receber

O momento em que percebi que chumbei

Perceber que terei de passar mais um ano no espaço que tenho tentado escapar e que essa tentativa pode me ter custado mais um ano a fazer algo que podia ter feito nos últimos três, é um sentimento de frustração maior do que poderia esperar.

Cresci com as palavras abstratas que deveria ter de estudar. A escola é o mais importante, escuta os professores, fica quieto na cadeira, não chateies os teus colegas e é bom que não receba nenhum recado. Tens que saber o que queres, o que queres seguir, seguir para a faculdade, ser alguém. O que queres fazer com esse diploma? Ainda não acabaste o curso? Coitadinho. A vida deve ter sido difícil, para estares a estudar na faculdade e não conseguires acabar no prazo expectável, tens de estar a passar mal, as palavras flutuantes da minha cabeça vão dizendo.

Esta é uma história positiva, com perceção inicial negativa que se transformou em acontecimentos de uma vida perfeita. Perfeita quando o sujeito está ciente da oportunidade de estar a viver uma vida boa, de estar vivo e de sentir o calor da primavera, as flores que nascem e que fazem lembrar da família, dos amores que estão vivos comigo e com quem partilho a água da vida.

No ano passado, percebi que não conseguiria acabar o curso naquele ano, quando deveria acabar. Percebi que tinha de dizer às pessoas à minha volta que ia ficar aqui mais um ano. A amigos, aos pais, aos avós, à tia que foi para a faculdade e que me deu todos os conselhos da vida durante este período, a academia. Não consegui escrever, falava menos e estava preso, preso dentro do meu corpo, como o meu corpo ficaria preso mais um ano neste espaço, a faculdade.

A atitude perante o probema

Dito desta forma, parece que a faculdade é horrível. Quase. Quase isso mais o facto de eu ter sido um totó. Inicialmente, senti que não pertencia ali. Vinha de um secundário em economia, para uma faculdade de ciências, para o curso de Física, numa cidade nova. Tudo era parecido ao que havia feito antes, porém nada, o muito nada, era igual. Acho que isso resume tudo o que tenho feito. É sempre algo parecido ao que tenho feito antes, mas nada fica igual. Mudanças de pessoas ao meu redor, casas por onde passo, experiências, gostos, cores favoritas, males, stresses, oportunidades, risos e decisões. Um caminho a tracejado.

A receção da informação de que falhei em passar a disciplinas do curso que escolhi, disciplinas de que gosto e com bons professores a lecioná-las, não é simples de digerir. Ainda que tenha tido as minhas razões e que não tenha estado bem durante um longo período, parece que não aceito qualquer justificação para não ter cumprido com sucesso a primeira fase da academia.

Parte da minha educação foi uma domesticação. Mais um Eusébiozinho para um Portugalzinho. Em pequeno, estranhos falavam comigo como se fosse animal de estimação e quem não me falasse assim, fazia mais de mim para que me vissem como “algo” a quem se falasse assim. Se não conseguisse ter uma resposta positiva às questões da mesa: está a correr bem a escola, os estudos, a faculdade? Sabes o que queres seguir ou fazer?, se não soubesse responder, caía no abismo do silêncio que se seguia a estas perguntas. Não me lembro de quem quisesse os detalhes do que estava a aprender, do que mais gostei de aprender na escola, se alguém contou uma piada, o que falei com amigos ou se falei com desconhecidos. Essas são as memórias que mais guardo destes anos. Enquanto não estava em casa, existia como ser social, no silêncio que a rua traz e no barulho das bocas, dos transportes, até chegar a uma árvore que pudesse subir.

Este foi o início. Este é o bolo alimentar mental que me atormentou. Entretanto, entendi que não estava sozinho. Quase metade de alunos universitários não passam a pelo menos uma cadeira e uma parte desses, tem de ficar mais um ano. Um número, estatísticas, pode ser para o lado que gostaríamos ou para o que não pensaríamos nunca estar. Ao meu lado, estavam amigos que também ficariam mais um ano. A vida passa, uma estação de cada vez, uma estação por ano e numa estação de comboio, um sentimento cresce. Apaixonei-me, comecei a namorar. Relações amorosas não é para os fracos de coração. Tenho tornado o meu caminho na vida menos a tracejado, mais contínuo, mais estável. Sinto que posso respirar melhor, com o meu namorado, sozinho, com a minha avó, com amigos. Estou a aprender a estar na minha pele, com tempo, sem pressa de chegar onde não quero ir. Onde não quero ir, não quero voltar. As próximas decisões que tomar serão tomadas pelas ideias que crio, que consigo criar no topo de um pinheiro manso, após meditar ou durante uma longa refeição, com quem fica para uma refeição longa.

Simplesmente, as coisas boas vieram. Não tive de esperar muito tempo para verificar que ter pressa estava a esgotar-me. Tinha as raízes mergulhadas no que pensei ser um freático estável, que me sustentaria, enganei-me, sequei até cair. Pensei que não me fazer cumprir nas minha escolha de fazer parte da academia me tornaria em alguém que merecia ser deplorado, incapaz de ser apreciado, que nunca acabaria aquele curso. O drama total.

De momento estou no segundo semestre, procuro acabar este curso e continuar na academia. Vou levar para sempre tudo o que este ano cheio me trouxe. Há um ano sentia-me com todos os adjetivos negativos que mencionei e outros, sem chão, em casa de rato. As ideias de rato acabaram. Ter chão é-me indiferente. Está calor, mesmo em dias de chuva e na sombra das noites de breu. Sinto-me assim, como se sobreviver e conseguir sorrir tenha sido tudo o que precisasse para saber que posso viver. E, agora vivo.

Finalmente

No final, no presente, consegui fazer mais do que alguma vez pensei fazer neste tempo. Criei um grupo na faculdade, o 2C, o grupo de literatura da Faculdade de Ciências da ULisboa. Venci a menção honrosa de um projeto de sustentabilidade na faculdade, contruí mesas de picnic na faculdade e estamos em processo de contruir uma biblioteca de rua. Estou a dar explicações e a aprender mais sobre plantas. Fiz uma viagem aos Açores com a minha avó que não teria feito se não estivesse aqui. Vou a concertos na Gulbenkian e usufruo mais dos espaços da cidade do que antes tinha conseguido. Consegui poupar dinheiro e comprei um pequeno terreno rústico para explorar também a minha fascinação pelo verde fotossintético e pelo belo Centro interior português.

Estou contente. Mais por anunciar em breve…

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