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Viagem à Terceira

Posted on Fevereiro 24, 2026Fevereiro 24, 2026 By diogo
Tempo de leitura: 3 minutos

Tenho cumprido com as minhas resoluções de ano novo. O objetivo de viajar com a minha avó concretizou-se, fomos à Terceira, Açores. Foi definitivamente uma aventura montanhosa. A terceira ilha que visitei, com três pessoas que amo muito, cinco dias de bom tempo, uma ida a um restaurante e centenas de vacas.

Vale a pena?

Inquestionavelmente, é um dos lugares com mais vegetação e diversidade de vida e sons que já visitei. Adorei por isso. Também por ser acessível, mesmo nos pontos degradados. Quando nos deparamos com estes pontos degradados, reparei que o haviam sido pela natureza. Alguma construção humana que se meteu no caminho dela e ela limpou-o. Uma ilha com pastos verdejantes, agitações permanentes, gritos surdos nos altos das serras e aroma azul e feliz. A minha avó. Pensei que a minha avó fosse uma ilha por estas razões. Assim como a ilha que encontrámos, acreditei que a vida e a verdura que ilumina a ilha e a minha avó fossem o que ela mais apreciaria. Enganei-me.

Atravessamos trilhos, caminho de elevada altitude e densos em herbáceas. Terrenos arenosos e avermelhados. Para a senhora minha avó era tudo mato e água. Aquela ilha, a viagem, mato e água. Rimo-nos bastante com os comentários dela, as caretas, tudo a que reagia era em função dos agentes e da geologia do lugar. Como não o tinha visto antes? A minha avó gosta de sol e terras planas. Os ventos, a mudança meteorológica consoante a altitude, as caldeiras e serras daquela ilha não estavam próximos das férias veranis e algarvias a que a minha avó se habituara. Como fui cego a isso?

Coloco estas questões com leveza. Como se esta página fosse um diário por instantes. Demorámos os primeiros dois dias para ver as motivações dos comentários da avó. Os netos a subir um trilho, com uma vista deslumbrante, sentados e com um pensamento no fundo dos crânios. Estamos a gostar? A avó não parece que está. É a forma de ser dela. A ilha é vulcânica, a avó é assim. Mato e água, durante cinco dias.

O que mais gostámos?

Nem tudo foi terrível. Visitámos Angra do Heroísmo, a Praia da Vitória, onde fomos ao Larica e passeámos, vimos vacas para uma vida inteira, provámos deliciosas Dona Amélias (as do café Copacabana foram as melhores!), raspámos raspadinhas, falámos com locais, aprendemos expressões novas, fomos a jardins de suster a respiração, vimos plantas que nunca viramos e cedros e gatos acompanhando-nos nos passeios. Nem tudo foi terrível.

A minha avó completou 81 anos no dia 15, no penúltimo dia da viagem. Nesse dia, acordei cedo para ver o nascer do sol no Miradouro das Veredas onde havíamos estado antes. Agradeci pelos dias que tínhamos tido até então. Não apenas naquela viagem, mas com a minha avó. Agradeci pelas suas pernas e força que tem. Eu estava cansado, ela conseguia andar mais depressa que nós. Talvez queria ver se mais à frente haveria algo mais que não mato e água. Agradeci muito por saber de cor o seu riso, o riso da minha irmã e da minha prima. São musas para muitas mangas e danos para muitas tangas. O dia continuou com a nossa ida ao leste da ilha, à Vitória e ao Larica. Celebrámos o aniversário da minha avó na Terceira, foi brilhante.

Onde ficámos?

Dormimos em São Mateus da Calheta. Aprendi que esta zona foi afetada e formada pelo vulcão de Santa Bárbara. A ilha toda foi, o arquipélago é todo consequência destas formações e da saída de matéria agitada, quase como palavras agitadas. Ainda acho que a minha avó é a minha ilha, que tudo o que faz pode queimar no início mas será sempre material de acrescento, de formação. Não sei bem o que sou. Neto de uma ilha. Se a ilha visitasse a minha avó, que coisas diria?

Para acabar, o livro que li durante a viagem. A Desumanização, de Valter Hugo Mãe. Escrita delirante e atraente. As personagens femininas nas suas narrativas são tratadas frequentemente de modo doentio. Ainda estou para perceber e matutar se acrescenta matéria à história ou se são efeitos com pouca causa. Pouca para a história, mas impactante ao leitor. Que lhe passa pela cabeça? Porquê a constante entre o feminino pequenino e o masculino grande? – comecei a ler o seu Filho de Mil Homens.

«Num certo sentido, todos os homens começaram por ser uma mulher. […] Num certo sentido, elas são verdadeiramente o único género que existe, porque os homens são mulheres que desempenham um papel específico que a estratégia das próprias mulheres inventou»

Desumanização de Valter Hugo Mãe

E, está tudo dito. Mais por viver.

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