O disco amarelo iluminou-se. A Maria, a uma distância suficiente para parar o carro, abrandou-o até travar. Na fila do seu lado direito, estava um senhor com idade para ser seu pai que lhe olhava com carinho, como se pensasse que estava ali uma mulher com idade para ser sua filha. A Maria estava com o pequeno Pedro no banco de trás, seu filho. Pelo retrovisor ela percebe que ele está concentrado a ver alguma coisa, Que estás a ver Pedrocas, É o senhor do carro aqui do lado, parece confuso, a olhar para todo o lado a tentar ver alguma coisa, Pois parece, que será que tem.
O semáforo ficou verde e já se ouvem as apitadelas. A Maria arrancou com o carro, Estou a ir, estou ir, caramba, não te preocupes Pedro, o homem deveria estar à procura dos óculos ou de algum papel, Acho que ele ficou cego, mãe, Não, filho, eu sou médica, não se fica cego assim de repente.
Chegaram a casa, não é todos os dias que a Maria consegue ir buscar o pequenote à escola, mas ultimamente tem feito um esforço para estar mais na sua rotina. Ele, no quinto ano de escolaridade, com uma curiosidade constante desde nascença, faz sempre muitas perguntas. Uma delas, há umas semanas atrás, fez Maria refletir sobre a sua relação com o filho. Mãe, o que aconteceria se todas as mães fossem médicas e não tivessem tempo para os seus filhos e apenas tivessem para os filhos de outras mães?
Na altura, Maria não soube o que responder. Disse que tinha de pensar bem, que era uma pergunta intrigante e dá que pensar. Depois agradeceu-lhe pela pergunta, olhou-o perdidamente, até que sentiu uma lágrima a romper o olho, abraçou-o e foi para o seu quarto. Ligou para a sua amiga de longa data, a chorar e a questionar as suas qualidades maternas. Sou uma mãe assim tão horrível, ele pensa que não estou presente e compara-se com outras crianças.
Trocaram algumas palavras, recebeu outros tantos conselhos e percebeu que as crianças por vezes falam sem o significado que os adultos dão às suas palavras. Aquela pergunta veio com curiosidade, fala com ele, pergunta-lhe com a mesma curiosidade o que queres saber dele, disse a amiga no final da conversa, Vá tenho que desligar, ainda vou tratar do jantar, Adeus, beijinhos.
Menos atribulada com a tempestade das interrogações do filho, Maria dirigiu-se à cozinha onde o encontrou. Gosto mais quando me vens buscar à escola, mãe, também gosto quando os avós vêm, mas é diferente, sinto-me melhor contigo. A professora de cidadania pediu-nos para escrevermos uma composição sobre a pessoa com quem mais gostamos de estar e escrevi sobre ti. Enquanto ele falava, ela sentia novamente as lágrimas prestes a cair, como graves, ao mesmo tempo que lhe passava um grande alívio pelo corpo por ter deixado o jantar pronto no dia anterior. Também gosto muito muito de ti, Pedrocas. Abraça-o e cheira-o, a mãe ama-te muito. Tenho fome, o que é o jantar? Bem, é a sopa de grão com arroz e sardinha. Ele olha para cima com surpresa, Comemos isso ontem, não há mais nada, Fizeste mais alguma coisa, Pedro, não, então vai meter a mesa e mete o som da televisão da sala mais baixo.
Tens de me mostrar essa composição que escreveste sobre a mãe, está no teu caderno? Sim, vou buscar ele, Diz-se buscá-lo, Está bem, vou buscá-lo a ele. Empurra a mesa para se arrastar para trás, com espaço, levanta-se da mesa, corre até ao quarto e volta com a mochila. Podias ter trazido apenas o caderno, não metas a mochila na mesa, deixa-a no chão e tira o caderno. Ao tirar o caderno, sai um papel retangular que escorregou para debaixo da mesa. Maria baixa-se para o apanhar e quando se levanta bate com a cabeça. Caraças desta cabeça, poxa, Aleijaste a cabeça, mãe, Um bocado, não te preocupes.
Depois de coçar a cabeça e ajeitar os cabelos, agarra firmemente no papel e lê-o. Aqui diz que amanhã os funcionários da tua escola farão greve, Pedro, por que não me disseste nada, Não sabia, Então, este recado veio parar à tua mala sozinho, Não, fui eu que pus mas esqueci-me. Enquanto trocavam umas palavras sobre responsabilidades, deveres de informar a mãe sobre tudo e questões de quem poderia ficar com o aluno sem aulas, do outro lado da cidade, a amiga e colega de trabalho da Maria, escreve-lhe uma mensagem onde procura saber se ela vai aderir à greve dos médicos no dia seguinte.
Maria recebe uma notificação no seu telemóvel, faz uma pausa na conversa com o filho, acabando a frase onde estava a olhar para ele como quem diz, é bom que não se repita. Lê a mensagem da sua amiga e colega de trabalho e percebe que se tinha esquecido por completo que ela própria decidiu aderir à greve de médicos amanhã. Olha que esta, duas greves no mesmo dia, Que dizes mãe, Amanhã os médicos e outros funcionários da saúde vão fazer greve. O Pedro, um jovem astuto, percebe que a mãe relê e lê a mensagem como quem não se recordava do seu conteúdo, a mãe também se esqueceu de lhe informar do recado da greve. Mãe, também te esqueceste de me informar sobre o teu recado, Não me esqueci nada, tenho muito que pensar, amanhã passamos o dia juntos, então, Boa, que vamos fazer, Ainda não sei, deixa-me responder aqui à minha colega, levanta a loiça, se faz favor, Está bem.
Um dia inteiro para eles, juntos, mãe e filho. Normalmente, nos dias livres do Pedro ele vai para casa de amigos ou dos avós e a Maria faz horas extras, por recomendação do hospital onde trabalha. Estes dias, quando os dois estão livres, são oportunidades raras, um eclipse, uma estrela cadente, uma lagosta azul, uma gaivota num deserto.
Preparam-se para dormir, lavaram os dentes juntos e fizeram chichi separados, a mãe aconchegou o filho na cama, confirmou que não há mais recados por informar, leu em voz alta a composição que lhe dedicou e assegurou-o que gosta muito dele, e ele dela. Foi para a sua cama, leu o seu livro de capa amarela e deixou-se adormecer.
Esta é a primeira parte desta história, diz-me o que te parece e o que pode acontecer.
